Mudanças de Paradigma: Uma chance perdida

Centro do Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 2014

Por Rodrigo Sampaio

Dizem que não há excesso de ônibus no Centro, mas o que a população carioca e fluminense vê nas ruas é bem diferente. Avenidas completamente tomadas apenas por coletivos, restrição de circulação de veículos particulares na Rio Branco e ainda assim engarrafamentos praticamente o dia inteiro. Relatos de 40 minutos consumidos no deslocamento entre a Central e a Candelária (a pé, faço o mesmo trajeto em 20 minutos, e não sou um exemplo de atleta, muito pelo contrário).

Mudanças radicais após anos de inércia tanto em reformas urbanas quanto no sistema de transporte. Mas o preço de tais mudanças tem sido alto, quase uma jornada de trabalho, cerca de 6 horas, perdidas no trânsito diariamente. “Não se faz omelete sem quebrar os ovos”,  diz o prefeito, como justificativa. Mas, senhores, é possível, sim, fazer um omelete separando as claras da gema!

Projeto do VLT do Rio de Janeiro

É preciso, sim, racionalizar e troncalizar o sistema! O Rio de Janeiro é uma das poucas metrópoles do mundo sem terminais de integração. E a oportunidade para essa mudança de paradigma era única!

Com as restrições de circulação no Centro, bastavam 4 terminais bem localizados: Rodoviária, Cidade Nova, Santos Dumont e Central do Brasil. Haveria transferência gratuita dentro destes terminais, sem necessidade de validação de RioCard, atendendo linhas de ônibus articulados com embarque e desembarque por ambos os lados, como há aos montes em São Paulo, ligando os terminais aos principais pontos do Centro (Praça Mauá, Cruz Vermelha, Lapa, Carioca, Candelária, Castelo e Praça XV). Algo bem próximo do que será o sistema com o VLT pronto. Poderíamos antecipar a construção do novo modal já com o sistema troncalizado, fazendo a população se acostumar com o novo esquema e tornar os deslocamentos pelo Centro mais eficientes.

Bairros e localidades do Centro (Cidade)

Bairros e localidades do Centro (Cidade)

Terminais sugeridos

Terminais sugeridos

Assim, teríamos a seguinte configuração:

  • Rodoviária: Linhas 3xx vindas pela Av. Brasil e Linha Vermelha, linhas 1xx via Rebouças e intermunicipais paradores vindas pela Av. Brasil;
  • Cidade Nova: Linhas radiais 3xx e 2xx vindas pela Radial Oeste e Tijuca, linhas 4xx via Rebouças, intermunicipais via Ponte e intermunicipais expresso via seletiva da Av. Brasil e Linha Vermelha;
  • Central do Brasil: Linhas 1xx e 4xx via Santa Bárbara;
  • Santos Dumont: Demais linhas 1xx

Os terminais da Central do Brasil e da Cidade Nova teriam integração com o sistema metroferroviário (SuperVia e MetrôRio). Seria interessante a construção de uma estação no ramal Deodoro (SuperVia) na Cidade Nova, integrada à estação homônima da Linha 2, próximo às oficinas de São Diogo.

Uma boa ideia são estacionamentos com serviço “park-and-ride” em todos os terminais, isto é, o valor do estacionamento incluiria ticket para embarque nos ônibus regulares, ônibus circulares e sistema metroferroviário. Hoje, já existem estacionamentos na Cidade Nova, Santos Dumont e na Rodoviária, além de haver amplo espaço para ampliação das vagas no primeiro. Já na Central seria necessário construir um estacionamento com acesso as alças do viaduto São Sebastião, que dá acesso ao Santa Bárbara, podendo o mesmo ser construído provisoriamente no antigo Centro Esportivo da UniverCidade.

As linhas circulares propostas seriam:

001 - Rodoviária x Santos Dumont

001 – Rodoviária x Santos Dumont

002 - Cidade Nova x Santos Dumont

002 – Cidade Nova x Santos Dumont

003 - Central x Santos Dumont

003 – Central x Santos Dumont

004 - Estácio x Santos Dumont

004 – Estácio x Santos Dumont

005 - Rodoviária x Candelária

005 – Rodoviária x Candelária

008 - Estácio x Carioca

008 – Estácio x Carioca

009 - Rodoviária x Central

009 – Rodoviária x Central

Como as linhas seriam análogas as linhas do projeto VLT do Rio, podemos estimar a demanda das linhas circulares pelo estudo de demanda do novo modal. O Estudo Preliminar e Provisório de Demanda para o Sistema de VLT na Região Portuária e Centro do Rio de Janeiro , produzido pela CCR, pode ser encontrado no site do Porto Maravilha. A demanda potencial seria entre 200 mil e 275 mil passageiros por dia no sistema de linhas circulares. E para dar prioridade ao sistema proposto, veículos particulares também deveriam ser proibidos de circular na Presidente Vargas entre a Central e a Candelária, deixando as pistas livres para táxis e ônibus.

Linhas Circulares: Sistema com prioridade de tráfego aos coletivos (bem próximo das linhas propostas para o VLT.

Linhas Circulares: Sistema com prioridade de tráfego aos coletivos…

Proposta preliminar do Quero Metrô! para o futuro VLT do Centro

…que é próximo à proposta preliminar do Quero Metrô! para o futuro VLT do Centro

Também seria necessário desviar todas as linhas diametrais (4xx) para o túnel Rebouças ou Santa Barbara (algumas com ônibus articulados também, como projetado por Lerner na década 80) que haveria uma revolução na mobilidade municipal e metropolitana. Implantaria, dentro de um plano de troncalização mais macroregional, já prevendo expansão futura do sistema metroferroviário, linhas radiais e transversais dos terminais no Centro para a Zona Sul. Essas linhas absorveriam a demanda (junto com as linhas 460, 461, 462 e 463) que, hoje, chega de ônibus ou pela SuperVia no Centro mas tem como destino a Zona Sul.

100 - Rodoviária x Ipanema / SV100 - Rodoviária x Gávea

100 – Rodoviária x Ipanema / SV100 – Rodoviária x Gávea

SP100 - Estácio x Ipanema

SP100 – Estácio x Ipanema

101 - Central x Arpoador

101 – Central x Arpoador

102 - Rodoviária x Copacabana

102 – Rodoviária x Copacabana

Proposta de Corredores Perimetrais para Transporte COletivo

Proposta de Corredores Perimetrais para Transporte Coletivo

Para o material rodante, a Prefeitura ou a concessionária responsável pelo Porto Maravilha poderiam financiar os veículos, que já são produzidos em larga escala no país, especialmente para São Paulo. Após aquisição, os mesmos poderiam ser passados as empresas de ônibus do consórcio Intersul (RTR 2) por meio de comodado via aditivo ao atual contrato de concessão do sistema. Ou poderiam, no mesmo esquema, serem operados pelo consórcio responsável pelos BRTs na cidade.

Biarticulado da Volvo em São Paulo

Biarticulado da Volvo em São Paulo

Temos a oportunidade, SuperVia voltou, depois de quase uma década, a ser mais barato que os ônibus, há restrições de circulação importante e está aí, aos olhos de todos, o excesso de veículos nas ruas, travando o sistema e causando ineficiência. Isso atrasa tanto a vida dos trabalhadores, como a vida dos donos das empresas, que tem prejuízos com seus ônibus parados, deixando de carregar.

Com as linhas radiais (1xx, 2xx e 3xx, além das intermunicipais) todas compartilhando os mesmos terminais, a demanda destas linhas seria redistribuídas entre elas e, pela primeira vez, teríamos dados concretos de como troncalizar todo o sistema, com corredores exclusivos (BRS) para regiões não atendidas pelo sistema metroferroviário e reforço na frota das linhas que passariam a servir de alimentadoras deste sistema.

Mas parece que faltou coragem ao nosso prefeito! Afrouxou e temeu a opinião pública, apesar de que, a essa altura, não faria a menor diferença (mas, parece que temeu). Teve medo de restringir a circulação de veículos particulares ainda mais. Teve medo de priorizar o pedestre nas travessias e no acesso à Central do Brasil. Teve medo de cobrar pedágio urbano para quem utilizasse do Centro como via de acesso à Zona Sul. Faltou grandiosidade ao não executar a ligação entre as Linhas Vermelha e Lilás (Santa Bárbara). Faltou criatividade, ao não melhorar o acesso da Av. Brasil para a Linha Vermelha na altura do Caju. Faltou visão ao não implantar faixa seletiva na Linha Vermelha, nem um BRS na Linha Amarela. Faltou pulso firme para tornar o sistema de transporte por ônibus em um sistema de fato, não uma briga de lotações como há décadas. Faltou visão… Faltou ser Fashion! Fraco! Muito fraco!

E, por enquanto, só nos resta o engarrafamento nosso de cada dia:

a73019ab4b2a7ef2bd26b617a7579e17*Autor: Rodrigo Sampaio, estudante de Engenharia de Materiais na UFRJ e Engenharia Industrial Mecânica no Cefet-RJ. Membro da equipe Quero Metrô! desde 2012.

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