Quando 1 na Zona Sul é mais importante que 7 na Baixada ou Zona Norte

Mais um dia na rotina de panes no sistema de transportes do Rio de Janeiro. Mais de R$12 Bilhões foram gastos em mobilidade para as olimpíadas, maior parte em sistemas metroferroviário. Mas mesmo para os 15 dias de jogos não houve alívio algum para o trabalhador carioca.

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Linha 4, 16 km por R$ 9,7 Bilhões. Fonte da Imagem: Metrô Linha 4 

4 horas e 45min da manhã após menos de 5 horas de sono. Esse é o horário que alguém que more em Piabetá, Imbariê, Saracuruna, Xerém ou Magé sai de casa para tentar chegar a seus compromissos às 8 horas no Centro do Rio, Zona Sul ou Tijuca. Sim, com sorte o tempo que se gasta no deslocamento de manhã é de 3 horas. Pode passar de 4 horas…

Fasbiano Rocha - Extra

Engarrafamento, isso que lhe espera na Av. Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela, Francisco Bicalho….Imagem: Fabiano Rocha / Extra

Na volta pra casa, mais um martírio: filas, longas filas para embarcar num ônibus. Com sorte, se consegue uma van. A espera passa de 1 hora. Se for uma sexta chuvosa, melhor desistir!

Barbara Lopes Agencia O Globo

Terminal Américo Fontenelle num dia qualquer, à noite. Imagem: Bárbara Lopes / Agencia O Globo

Osvaldo Praddo - Agência O Dia

Com sorte você consegue ir numa van… Que pode ser apreendida em fiscalização do Detro, lhe deixando sem opções a não ser encarar União, Reginas, Trel… Empresas que respeitam seus passageiros. E cuidado, podem fazer isso com seu carro também, achando que sua carona é passageiro. Imagem: Osvaldo Praddo / O Dia

Apenas 900 mil “afortunados” tem a opção de utilizar os trens da SuperVia ou a Linha 2 do MetrôRio (quando não usam ambas). Sistema caro, construído com muito afinco desde 1854 por Irineu Evangelista, o Barão de Mauá. Trilhos que já carregaram mais de 2 milhões de passageiros em um dia no seu auge. Que chegavam a Xerém, Mauá, Itaboraí, São Gonçalo, Niterói, Miguel Couto, Éden, Vila de Cava, Tinguá, Itaguaí, Tanguá, Rio Bonito, Maricá e até Seropédica! Eram quase 600 km de linhas atendendo a região metropolitana do Rio com trens de subúrbio até a década de 1960.Sim, até Linha 3 existia, fazia parte da E.F. Leopoldina, Linha do Litoral, com partidas da estação Central de Niterói (General Dutra), cujo os trilhos foram retirados para construção dos acessos a ponte Rio-Niterói por carros. Rio D’Ouro, que atendia Xerém, Miguel Couto, Tinguá e outros subúrbios de Nova Iguaçu teve seus trilhos arrancados. Mesmo destino teve a E.F. Maricá. Ramal Mangaratiba, E.F. Mauá, Linha do Litoral (que tinha o serviço Niterói x Itaboraí), entre outras, foram simplesmente abandonadas, largadas a própria sorte (e as invasões). Eram ferrovias centenárias, precisavam de investimentos para serem modernizadas, eletrificadas, duplicadas em alguns casos e com estações reformadas ou reconstruídas. Hoje, temos pouco mais da metade da malha que tínhamos em 1960, isso desconsiderando os trilhos que subiam as serras. Modernizar 1 km de ferrovia custa alfo ente R$7 e R$30 milhões incluindo estações. Construir 1 km de “Metrô” do zero pode custar até R$600 milhões, não saindo por menos de R$120 milhões.


Após as olimpíadas, a rotina do Rio voltou ao normal. E uma velha falha conhecida volta a atormentar o povo trabalhador do Rio de Janeiro. Um roubo (ou tentativa de), deixou em evidência uma série de falhas do sistema ferroviário fluminense. Eletrificação feito nas coxas, vias retiradas, falta de sistema de redundância, sistema elétrico sobrecarregado por falta de subestações (só tem duas entre Triagem e Saracuruna) e negligência tanto da concessionária SuperVia (que não faz a segurança de seu leito direito, e não, não é só responsabilidade do Estado, segurança particular e monitoramento servem pra isso) quando do concedente, o Governo do Estado. O sistema foi completamente sucateado e abandonado há décadas! E único benefício vindo com as olimpíadas foi a estação São Cristóvão nova (Maracanã foi pra Copa do Mundo).

Na década de 1970 haviam 4 vias e dois tipo de serviços na Leopoldina, parador e expresso. Hoje, se houvessem ali as vias da métrica que existiam no passado, as locomotivas a diesel operariam até Gramacho (ou mesmo até o Rio, Penha ou Barão de Mauá), mitigando o problema. Não foi exatamente um furto de cabo, cortaram um dos cabos da Rede Aérea na altura de Jardim Primavera, mas não conseguiram levá-los. Aí fica a pergunta, por que não haviam agentes patrulhando o leito? Poque não há câmeras de segurança monitorando o leito? Isso não é algo que necessite do aporte do Governo no Estado, é responsabilidade do privado, SuperVia, de resguardar seu patrimônio material. É inadmissível descobrirem que houve uma falha, uma interrupção no fornecimento de energia, ás 4h e 40min da manhã quando tentaram tracionar trens no trecho! Estava lá, o cabo cortado pendurado e só quase às 6h da manhã que a SuperVia me descobre que invadiram sua propriedade (concedida, se eu alugo uma casa ela passa a ser minha responsabilidade enquanto locatário).

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Invasões no leito do “ramal” Belford Roxo na altura de São João de Meriti. Segundo a concessionária, é responsabilidade da Polícia a segurança. Pela legislação, ocupação do solo é fiscalizada pela Prefeitura. Porém, se invadirem o quintal da casa que você aluga e começarem a subir um muro, você vai deixar? Foto de Filipe Anacleto

Mas é ainda mais revoltante saber que 15mil pessoas, maioria trabalhadores, ficaram completamente sem transporte nesta manhã sem receber nem um comprovante da concessionária pelo problema (eles, quando são emitidos, tem que ser solicitados pelo SAC e pegos na Central do Brasil). Por que diabos não há um plano de emergência com ônibus, vans ou o que quer que seja para levar os passageiros até o local onde é possível embarcar no sistema? São Paulo tem o PAESE (Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência) para casos como esse, o que o Rio de Janeiro tem? Um “boa sorte” e nada mais (que soa como um “se vira, não é problema nosso”).

E o que o Governo do Estado do Rio e sua Secretaria de Transporte fazem por essas pessoas? Nada! Importante pro Estado é arrumar mais R$500 milhões para terminar a estação Gávea, da Linha 4, a um custo de quase R$1 Bilhão, e atender 20 mil pessoas por dia (segundo estudo da FGV), deixando as mais de 280 mil pessoas do corredor atendido pela Leopoldina no engarrafamento (dados da matriz de deslocamentos totais do PDTU). Prioridades, 20 mil eleitores da Zona Sul são mais importantes que 300 mil na Zonas Norte e Baixada… Isso porque a passagem é paga, os passageiros na Gávea gerarão nem R$100 mil reais de receita por dia, enquanto os engarrafados da Leopoldina gerariam mais de R$1 milhão em receita (ou seja, 10 vezes mais impostos e 10 vezes mais lucro pros operadores, incluindo aí ônibus que ainda seriam necessários pra maioria chegar as estações, inclusive os que, hoje, usam carro).

Daniel Marenco O Globo

Gávea. Imagem: Daniel Marenco / O Globo

Tomando como referência a expansão da Linha 9 em São Paulo, custaria R$680 milhões duplicar Gramacho x Saracuruna (incluindo sistemas) e duplicar com eletrificação e estações novas Saracuruna x Piabetá. Enquanto custaria R$1,2 bilhões duplicar (para possibilitar trens expressos como décadas atrás) e modernizar todo eixo Central x Gramacho. Pouco menos de R$2 bilhões pra atender 280 mil pessoas diretamente, R$7 mil reais por passageiro, enquanto a Linha 4 custou R$ 10 bilhões pra atender 350 mil, R$28 mil por passageiro (4 vezes mais). Só a estação Gávea custará, aproximadamente, R$50 mil por passageiro.

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Maracanã nos tempos da CBTU. Auge das trevas.

População abandonada pelo poder público, concessão endividada e ineficiente, inversão de prioridade por protagonismo eleitoral. E assim vivemos no Rio de Janeiro, feliz aquele que conseguiu comprar e manter seu carro, engarrafado mas com algum conforto.

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Meio de transporte da população fora do eixo Tijuca – Centro – Zona Sul.

Mas quem se importa com a população das zonas Norte, Oeste, da Baixada, de São Gonçalo se o Rio da televisão, a Zona Sul, continua lindo??

“Trem sujo da Leopoldina
Correndo, correndo, parece dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Estação de Caxias
De novo a correr
De novo a dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Tantas caras tristes
Querendo chegar em algum destino
Em algum lugar
Sai das estações
Quando vai parando começa a dizer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Mas o trem irá todo autoritário
Quando trem parar

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a73019ab4b2a7ef2bd26b617a7579e17*Autor: Rodrigo Sampaio, estudante de Engenharia de Materiais na UFRJ. Membro da equipe Quero Metrô! desde 2012.

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Uma resposta para “Quando 1 na Zona Sul é mais importante que 7 na Baixada ou Zona Norte

  1. Prezado Rodrigo, bom dia!

    Sensacional o seu post sobre os trens suburbanos.

    Também sou um apaixonado pelo tema.

    Tem um pesquisador de São Paulo que fez ótimas matérias sobre a nossa malha ferroviária.

    É uma lástima o que aconteceu com e acontece com o sistema metro-ferroviário e também o marítimo em nossas cercanias.

    Lembra das campanhas do atual e antecessor governador e de todos os outros?

    Mentirosos! Todos são.

    Bom qualquer evento, ou por aqui, gostaria de continuar esse debate aqui, presencial ou em outra mídia e desejar uma reversão no processo.

    Cordialmente,

    André

    Bom, desejo sorte e

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