Nos preparativos de lançar o futuro livro sobre o QUERO, me deparei com um desafio que enfrentei várias vezes ao fazer uma rede de transportes tão grande: consolidar uma identidade visual. Uma das minhas ideias em torno desse livro é começar uma campanha de financiamento, com algumas recompensas para diferentes níveis de apoio. Na maioria dessas recompensas, o livro poderia ser acessado na sua forma bruta, antes da primeira edição, em PDF mesmo. Estou chamando esse arquivo de zerésima edição. Uma das razões para ainda não ter começado a campanha é justamente uma dificuldade de terminar um formato gráfico que eu julgue satisfatório.
Pois, apesar de que o livro vá ser publicado por uma editora, essa zerésima edição é um item promocional que precisa estar apresentável. O acabamento só acontecerá no processo editorial, mas como se trata de cidades e de muita geografia, tive que fazer muitas figuras (48 para ser exato) para apresentar meus pensamentos, tudo por conta própria. A habilidade para desenhar não foi um obstáculo tão grande porque já tenho uma certa experiência fazendo mapas. Obviamente, por eu não ser arquiteto e não ter tido um treinamento artístico muito completo, essas ilustrações são muito esquemáticas. Eu me esforcei bastante e acho que tudo ficou muito bonito, mas esperem mapas e infográficos simples, um produto diferente das lindas e elaboradas perspectivas dos portfólios de arquitetura.
O maior problema mesmo foi a capa. Eu também não sou designer! Usei toda minha capacidade e fiz um esboço monocromático, preto com branco, que ficou até legal. Contudo, comecei a ter dificuldades a partir do momento que tive que escolher cores. Essa etapa de selecionar uma paleta sempre foi uma deficiência na minha prática profissional fazendo mapas. No fim, depois de insistir bastante, encontrei uma boa combinação de cores. Spoiler: a referência é o Gangnido, um mapa coreano clássico de 1402, que também foi a inspiração para fazer o novo cabeçalho aqui do site. Ainda acho que falta alguma coisa e agora conto com o auxílio de amigos designers das minhas redes de contato para finalizar minha arte. Como a capa só deve estar pronta com as cores finais perto do lançamento, a zerésima edição deve ser distribuída com a versão preto e branco da capa.
Isso tudo foi para dizer que, nesse processo, percebi que iria faltar o selo da editora na capa provisória. Nesse momento, fiquei com uma vontade absurda de fazer um novo logotipo para o QUERO e botar nesse lugar. Eu já vinha pensando nisso há um tempo, até porque o logo antigo era completamente improvisado: a estação Central recortada de uma das primeiras versões do diagrama de metrô. Decidi, aproveitei o impulso e fiz o símbolo de uma vez só para não perder a linha de pensamento. Na imagem a seguir, é possível ver o resultado final.
Além de obviamente haver uma referência às estações de transferência dos esquemas de transportes, tentei também incluir outras inspirações, sobretudo orbitais moleculares e bússolas. Como pode ser visto no diagrama de construção do logo, usei os círculos de uma Peneira de Apolônio para fazer curvas suaves. Na execução, consegui montar algo parecido com uma flor, como planejado, e, para a minha sorte e surpresa, também surgiram balões de diálogo.
Um detalhe que fiz questão de aplicar foi possibilitar a adaptação do logo para representar estações de transferência. Os balões (ou orbitais, ou pétalas) são elementos modulares, que podem ser retirados ou colocados. Nesse caso, eles também são excelentes para simbolizar as ligações de transporte público, com as cores das linhas que podem ser acessadas. Basta adicionar algo para indicar o norte (exemplo: escolhi um arco cinza) que o logo funciona exatamente como uma bússola. Assim, todo ponto de baldeação, toda estação, teria seu símbolo próprio! Na figura abaixo, fiz um experimento com estações do Plano QUERO.

Estações de transferência representadas pelo logotipo: Pavuna, atual terminal da Linha 2, com linhas novas; Moinho, uma estação central para Niterói, com mais de 8 ligações; Passeio, uma nova estação na Linha 1 para receber linhas de trens expressos.
Então, novamente, tive que escolher cores, dessa vez para o logo. Minha solução até foi fácil, só tive que selecionar as tonalidades que já estavam sendo usadas no Plano QUERO que ficassem bonitas e fizessem referência ao símbolo anterior. Eu estou muito satisfeito. Inclusive, acho que a variante line art, apenas delineada e com todas as 8 pétalas, seria um belíssimo símbolo para uma rede integrada como a proposta aqui. O problema é que, depois de escolher a paleta do logo, eu comecei a implicar com muitas das cores da própria rede!
Isso significa que boa parte das imagens que apresentam o sistema de transportes proposto no livro, senão todas, teriam que ser substituídas. Esse seria um trabalho imenso e eu poderia optar por simplesmente suprimir a minha compulsão, mas, veja bem, isso nunca foi uma escolha. Eu já tinha uma certa antipatia com algumas cores que estavam muito semelhantes (linhas 3 e 7, principalmente), então bati o martelo muito antes de fazer esse post. Se vocês não lembram das cores na rede que publiquei aqui há poucas semanas, ou há mais tempo nas redes sociais, elas nunca existiram, porque eu já as substituí.
Muito antes desse ajuste, eu já havia criado um esquema para evitar conflitos entre cores semelhantes. O espaço de cores – organizado em matiz, saturação e brilho – foi dividido em 112 células onde tonalidades únicas podem ser escolhidas. Essas são cores ideais, compatíveis apenas para telas; então, depois da seleção de uma célula, vem um processo exaustivo de consulta de cores compatíveis com tinturas, comparação com as cores já estabelecidas para haver contraste e respeito com as cores conhecidas da rede existente. Além disso, como se trata de uma rede de transportes hipotética, garanti que toda cor tivesse que ganhar um nome exclusivo, às vezes com o requisito de ser compatível com um tema mineral ou vegetal. Dessas 112 cores, 77 já estão ocupadas, inclusive alguns tons somente para apoio e reserva. Tudo isso foi feito inúmeras vezes e também teve que ser documentado, para eu não me perder.
Para a minha felicidade, eu ainda não havia publicado a rede inteira em lugar algum. Até agora, eu soltei apenas os serviços ferroviários, com 17 cores para metrô e trens expressos. Falta ainda adicionar os corredores BRT (4 cores), os veículos leves sobre trilho (12 cores) e as rotas especiais do metrô em vias compartilhadas (24 cores). Isso será divulgado gradualmente, com explicações de cada parte do sistema – pelo menos não vou ter retrabalho. Ainda há muito o que fazer, principalmente os mapas do livro. Isso não afeta muito o calendário planejado, mas deve atrasar um pouco a entrega da zerésima para os primeiros apoiadores. Espero que entendam. A campanha começa daqui poucas semanas!

